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04 novembre 2006

Cronicas do Viajante Amargurado - Quatro meses.

Tenho no meu trabalho uma amiga turca que vive em Paris ha uns anos e em França ha mais de cinco. Como ja nos conheciamos antes deste estagio, foi facil marcarmos encontros e rirmos juntos. Podemos, além disso, partilhar o nosso espanto respeito das saidas de um terceiro colega ao qual prefiro chamar Jean-Pierre. Oriundo da zona de Lyon, veio para a capital com o objectivo de fazer um Mestrado profissional em Comunicação. Assim, como nos os dois, o Jean-Pierre deveria exalar uma certa alegria de viver, contente por estudar e poder por em practica os seus conhecimentos, por exemplo. Mas não.
O nosso colega gosta de falar sozinho. Tal não constituiria problema algum se as suas conversas não fossem basicamente queixumes em surdina ou expressões de desagrado constante. Assim, enquantro escrevemos nos nossos teclados, preparando um texto para ser incluido no nosso sitio web, ouvimos mais do que umas três vezes cada dez minutos: “putain, ça fait chier, putain”. Assim, imaginem a vossa cabecinha a pensar “Então... depois da entrevista... foi para a sala de im- PUTAIN/FAIT/CHIER/PUTAIN – hã? Ah!... sim... sala de imprensa... saiu – OH ZUT MERDE ZUT – ooops.... ja me esqueci outra vez!
Desra maneira corre o meu pensamento ao longo das tardes. A coisa agrava-se, se tivermos em conta que se trata de uma empresa pequena, com poucos empregados e com pouco espaço fisico. Assim, não temos hipotese de fugir. O pior de Jean-Pierre nem é a tristieza ( apesar de ser o que domina ), mas sim a alegria. Esta traduz-se num assobiar estridente seguido a toda e qualquer acção levada a cabo com sucesso. Um enérgico bater de palmas costuma acompanhar o prévio assobio, constituindo um mimo para a cabeça cansada de quem se encontra ao lado. As horas santas? Pausa para o cigarro. Ah, porque o Jean Pierre é um fumador nato! Noutro dia perguntou-me:
-Não fumas?
-Não. – respondi com um sorriso sem grandes segundas intenções.
-Ah. – não sei que queria dizer o Ah, mas o olhar foi como se eu fosse protestante numa freguesia de Braga.
Noutro dia, como acontece muitas vezes, tivemos de catalogar formatos de video que chegavam à agência, para pô-los depois à disposição dos clientes. Quando a Gwinnet Paltrow esteve em Madrid para filmar não sei quê, teve alguma dificuldade em sair do aeroporto de Barajas. Queriam a todo o custo, fimar a sua filha, que da pelo nome de Maçã. O interessante foi, quando uma senhora espanhola se pôs a barafustar porque tinham deixado a estrela de cinema passar à sua frente. Jean-Pierre decidiu ( porque a senhora falava espanhol e ele não poderia entende-la ) que se tratava da acessora de imprensa de Gwinnet!
- Sim, sim, porque eu ja a vi antes noutros videos com a Gwinnet Paltrow! Resta-me dizer que a senhora em causa gritava em espanhol “Olhe, nos aqui somos todos iguais!”. Além disso, tinha um passaporte espanhol na mão. Jean Pierre insistiu e esperei que saisse para tirar do texto a observação acerca da suposta “acessora de imprensa que acompanhava a actriz”. Este estagio vai durar quatro meses. Quatro longos meses.
No Hexagono.

17 octobre 2006

Cronicas do Viajante Amargurado - Administrado.


Seria uma autêntica fusão cliché-lapalissade começar este novo episodio sobre a vida do viajante amargurado fazendo referência ao facto de que a França, ainda é, senhor leitor, o pais dos Droits de l’Homme. Mas, uma vez postos no tema, aproveitamos para lembrar-lhe que este é também o pais da Revolução. Como deve saber, os momentos de corte radical consequentes do processo revolucionario, podem dar lugar a grandes periodos de desequilibrio. Um bom exemplo foi la grande peur, periodo que domina ainda os meandros da administração francesa. Nesse territorio influenciado pela tirania da burocracia, quem tem a secretaria à cintura, tem a lei. A lei e a ordem são feitas pela... lei e pela ordem. O mais aterrorizador é que esse marco de legalidade que nos espetam na cara a cada queixa que vamos fazendo, constitui pau para toda a colher das aberrações de cariz administrativo!
Lembro-me quando, ha um ano e uns dias, fui pela primeira vez ao Instituto Francês de Imprensa, matricular-me numa pos-graduação para a qual tinha enviado um pedido de admissão. O nome sonante, a universidade à qual pertence o instituto tida como “de prestige”. Tudo para ganhar. Primeiro contacto com a administração:
- Mais qu’est ce que vous voulez?
-Euh, ben... je suis venu m’inscrire...
- Ah bon ? C’ est pas le bon jour.
Olho para o horario e peço perdão ao consulado de Portugal por ter criticado a sua falta de eficiência. Segunda, aberto das nove às onze, terça, das 13 à 17, quarta, FECHADA TODO O DIA, quinta, aberto das 14 às 17 e sexta, das nove às 13. Para além de um excelente exercicio de matematica ( so lhe faltam equações ), é um horario digno de uma comédia italiana. Mas não, senhor leitor. Trata-se de uma escola de comunicação e jornalismo pertencente a uma das tidas como “boas” ( seja la o que isso for) universidades da cidade luz. Administração 1, Hexagonista 0.
Segundo tiro: resposta curta. Mais qu’est ce que vous faites la tous les jours? Desespero. Eu venho inscrever-me, sabe? Matricular-me! Entrar para a faculdade!!! Ele não percebeu a parte do entrer, porque parece que em francês isso não se diz e eu tenho de adaptar-me a estas pessoas, custe o que custar. Às pessoas posso adaptar-me bem. Ao aparelho administrativo é que ja não sei. Depois de ( tentar ) fazer a matricula, chegou o momento de escolher o seguro de saude. O senhor encarregado de matricular os estudantes não sabia como escolher o seguro, que companhia era melhor e qual deveria escolher um estrangeiro. Achei estranho, tendo em conta que era um dos pilares do seu trabalho na secretaria ( a existência de alunos para inscrever e gerir as suas necessidades de acordo com os recursos presentes ). Estranho também que desconhecesse todos e cada um dos pontos do papel de matricula. Como não tinha uma carte bleue ( versão visa da excepção cultural ) fui ameaçado com uma suspensão de matricula. Aparentemente, a secretaria, ou melhor, o canto de sala com dois armarios de metal e dois tipos na cavaqueira de porta fechada todo o dia, era demasiado moderna para que fossem efectuados pagamentos en espèce. Espècie de gente estranha, é o que eu lhe digo.
Mas a historia continua, durante mais nove meses. Desse parto saiu um diploma. Sufrido. Trabalhado. Mas por mais que se esforce um para pensar que aprendeu muito naqueles anfiteatros, a verdade é que as grandes lições do ensino superior francês se dão naquels tuneis de clausulas, de codigos, de papéis. De horarios sadicos. De gente que nunca os cumpriu. Quando recebi o diploma pereceu-me ler uma clausula pequenina, na parte de tras, que me explicava que parte da minha alma faria parte dos arquivos do instituto. Fui administrado.
No Hexagono da prosa.

29 septembre 2006

Cronicas do Viajante Amargurado - Inversão de Papéis.

Pela noite dentro. Escrevo no computador portatil aquilo que, dentro de oito horas, sera a minha Memoire do Diploma que me propus fazer este ano. Sera por ter visto demasiados filmes americanos, mas sempre que me encontro sozinho em casa a altas horas da noite, começo a pensar em coisas parvas. Como por exemplo, se alguém vira roubar a casa ou qualquer coisa parecida. Tudo a puxar para o tétrico.
A porta abre-se.
Como eram quase quatro da manhã, pensei que o meu senhorio teria alugado a Chambre de Bonne ao lado da minha e que o meu novo vizinho, provavelmente algum estudante; chegava de alguma festa.
Chega um individuo, com os seus quarenta anos, o cabelo cinzento e crespo. Vestido com uma dessas camisolas a que costumamos chamar “de fato de treino” e umas calças cujo tecido não me lembro agora.
Que é que você quer? Diz-me de uma forma brusca.
Como achei que essa pergunta deveria ter sido feita por mim, comecei a gaguejar
Vi-vi-ve aqui?
Eu por acaso bati à sua porta?
Não, não é isso. Queria saber quem era..
. A situação era tão estranha que pensei estar a sonhar. O senhor foi-se aproximando até estar em cima do meu nariz.
Eu por acaso bati à sua porta? Hã?
Como não sabia que dizer, fitei-o durante momentos. Que estaria a acontecer? De onde saia este novo inquilino, demasiado velho para ser estudante sem casa e demasiado agressivo para quem vinha apenas a chegar.
Feche mas é a porta! Onde ja se viu isto? Ha? Ah, ah, ah, você é ridiculo!
E nisto fala com alguém, que pelos vistos, estava ja dentro do quato.
Se tem medo, chame a policia!
A sensação de estupidez foi depois substituida por outra, bem menos confortavel. Pânico. A tremer por todos os lados, telefonei para esse célébre numero europeu de segurança ou emergência. Seja como for, eram todos demasiado lentos naquela linha. Quando finalmente convenci o senhor de que poderia estar em perigo ( custou-me tanto que os tais visitantes a altas horas da madrugada conseguiram fugir pela porta fora), decidi esperar pelos tais policias ( dois fardados e um à paisana, segundo me explicou uma segunda pessoa ao telefone, com um ligeiro sotaque de Toulouse).
Corri tão depressa pelas escadas abaixo, que os policia fizeram-me uma espera. Quando vi os três, pensando que eram os visitantes de antes, dei um salto para tras e assustei-os uma segunda vez. Deve ter parecido tudo tão comico que até tenho vergonha so de pensar que algum vizinho poderia estar a ver.
- Pois, mas eles agora ja devem ter fugido.
Sabia conclusão, a deste jovem policia com background do sudoeste asiatico, sem duvida. Continuava a tremer e expliquei como tudo se passou aos dois “guardas”. Tomaram nota de tudo e de uma forma muito Zen, desapareceram como os meus amigos.
Decido ir contar tudo ao meu senhorio, que abre a porta imediatamente, pela primeira vez desde que vou ao seu andar para pagar a renda todos os meses desde ha um ano. A gata siamesa da sua senhora salta-me para as pernas como se quisessem fazer um festim de madrugada. Depois de explicar tudo, tenho de confrontar novamente as minhas àguas furtadas, sem luz, com as portas abertas e com gente que, como viemos a descobrir mais tarde, entra e sai pelas janelas modernas que instalou o meu senhorio, quando quer e bem lhe apetece. Decidi depois que aquele lugar era demasiado pequeno para terminar o trabalho e fui acabar o que ainda me restava a Saint Michel. Ando sempre à procura de historias unicas para poder enriquecer este blogue, sabem? Mas esta, preferia tê-la inventado completamente. Infelimente, é cem por cento verdade. Depois percebi que este gatuno, que vinha por coisas menores e que felizmente não estava a roubar no Utah ou no Arkansas, senão, acho que teria levado com um balazio na testa sem problemas. De qualquer maneira, ao tentar inverter os papeis, confundiu-me tão bem, que, se o quarto ao lado não estivesse vazio, teria roubado tudo o que la estivesse dentro. Mas o mais importante, Senhor Leitor, é que acabei o tal trabalho.

No Hexagono.


18 septembre 2006

Cronicas do Viajante amargurado - A Sopa de Bob.



Muitas vezes, é preciso puxar pela cabeça para tirar o sumo às situações. Esta não é uma dessas ocasiões. Ainda estava a acontecer e ja pensava em escrever sobre ela.
Ando atrasado com o trabalho da faculdade. Decidi, porque a BNF esta fechada ( sem que avisassem, para que a visite gente importante sem estudantes parvos a chatear) ir até à Biblioteca Publica de Informação, no Centro Georges Pompidou. Entre Chatelêt e Saint-Paul, ofrece a possibilidade de consultar livros, dicionarios, mas também microfilmes, discos e até DVDs com métodos de linguas estrangeiras. Tem também uma secção com televisores onde passam emissões em distintas linguas.
O mais interessante é que se trata de um espaço nada elitista. Acessivel a todos. Para todos. Assim, imbuido de um espirito de la culture pour tous, la fui procurar documentos. O problema é que, como todos queremos la ir, encontramo-nos todos la dentro. Tentei hoje fotocopiar uns microfilmes para a mini-tese. Começo por tentar encontrar a sala das fotocopias, depois de ter conseguido os microfilmes ( reconheço que esta parte até nem foi dificil).
Ali, consegue ver? Naquela parede que diz PHOTOCOPIES.
Esta escrito com letras de dois metros cada uma. De facto, a letras são tão grandes que nem se da por elas, do tamanho de dois portugueses um em cima do outro. Depois de sorrir amareladamente para a senhora do accueil com vergonha por não ter vistro o megaletreiro, dirijo-me para a zona das fotocopias de microfilmes.
Povoada por dois seres absolutamente fascinantes, acabou por constituir um optimo fim de tarde. O primeiro deles, mais ou menos nos seus 25 anos, camisolão negro a cair pelos bolsos, loiro, cheinho e muito avido de explicações a quem necessitasse.
So ha dois processadores de microfilme, sabe?
E o pior é que como muita gente aqui vem, ha sempre um tempo de espera consideravel. Explicou-me aquilo com uma cara de felicidade que até agora não consigo entender. Como se fizesse parte de uma espécie de clube a partir do momento em que cruzei aquela porta de vidro com um autocolante enrugado a dizer MICROFILMS. Mais ou menos como um “clube da sabedoria”, criado pelo professor de Religião no oitavo ano e no qual ninguém queria participar. O trauma segundo foi o preço das fotocopias. Volta o sorriso à cara deste Ser. São 46 centimos cada, sabe?
Quando desfaleci, ele sentiu outro momento de prazer ( tenho a certeza, sabem?) Explicou-me, com toda a educação do mundo, que não era ele quem establecia as tarifas. Arremelgava os olhos compulsivamente e isso fazia com que me esquecesse do piercing verde alface que tinha num dos labios.
Foi nesse momento que apareceu Bob. Era simpatico e sorridente. Fisicamente, era como uma projeção do nosso primeiro amigo ( nunca lhe soube o nome). So que maior, mais alto e mais cheinho. Também loiro e com um aspecto de Boer explorador. Falava um francês com um sotaque californiano tão forte que, sem querer; começava a responder-lhe em inglês. Explicou-me que a culpa daquilo tudo era do French State.
E eu disse: Ai sim? Achei que seria de bom tom manter-me deslumbrado com semelhantes explicações. Quando finalmente tomei fôlego para começar a fotocopiar os documentos, reparado do choque do preço e das técnicas, reparei que Bob era também um homem cheio de sentido de humor: por tras da sua cadeira de chefe da sala das fotocopias estava um cartaz feito à mão em francês que dizia: A partir de 50 fotocopias, oferecemos uma tigela de sopa! Não, era mentira!! Engraçadissimo. Especialmente depois de fazer as contas.
A verdade é que são os dois muito simpaticos, pois tenho ido à biblioteca todos os dias e deixam-me sempre estar mais tempo do que o indicado no regulamento. Ainda assim, custou-me a acreditar quando vi a Sopa de Bob.
No Hexagono.

25 août 2006

Cronicas do Viajante Amargurado - Café.


Estar num café em Paris, como, em todo o local onde gente de varios sitios decide aparecer, uma experiência digna de contar. Em época de exames de setembro tenho, não deveria, mas tenho, mais tempo para vir bloguear. E assim faço. Desde ha uns dias que me sento aqui, num café de uma cadeia ( tão simpaticos que nem parecem de uma cadeia de cafés) que tem a particularidade de deixar o sinal de internet aberto para todos. O normal seria cobrer seis euros por hora de ligação (sim, seis euros). Estive aqui umas quatro ou cinco vezes e vi gente de tantos sitios. Gente, sobretudo, que esteve en tantos sitios…
- So, do you have wireless here, hum?
-Sorry?
-You have internet here, right?
-Oh, yeah! I love. Cheap and you can stay for hours… great, hum?
-Sure is. Where’re you from?
-Portugal.
-Oh, I really wanna visit it!! Amazing girls there, right?
-Er… yes, I guess so!
- I meet a few Brazilian here in Paris and they were all sooo nice to me. I bet the Portuguese are alike!
-Probably! I never was in Brazil before.
-Yes, they are wonderful down there.

Este dialogo de quinze minutes foi travado, ou melhor, destravado, com um senhor de Boston, todo vestido de negro e com um ar de interessante, que escrevia numa espécie de agenda HP ao meu lado. Depois da conversa, pensei que tinha estado a falar com um jock de alguma College. Mas não. O cavalheiro em causa desprendia apenas... alegria de viver.
No Hexagono.

11 juillet 2006

Cronicas do Viajante Amargurado - Novos Amigos


Tenho amigos novos. Conheci-os ontem, num bar muito apreciado pelos jovens estudantes erasmus na capital francesa. Não sei se o facto de que as jolas custem apenas três euros influencia a escolha dos rapazes, mas o certo é que o Bistrôt esta sempre cheio de gente.
Comecei por afiliar-me a este clube das segundas-feiras quando um amigo alemão me convidou. On va au bistrôt? E respondo eu, inocente e pouco sociavel: Lequel? Foi como recusar uma fatwa em Peshawar. Ainda estive para ripostar com um “Aaaaah! LE Bistrôt!”, mas não me apeteceu.
As relações no bistrôt espantam-me profundamente. Todo contente, um norueguês explicou-me que não havia nada melhor em Paris do que ir bêbedo para casa depois de seis horas a fio no bistrôt a beber como um bufalo. Eu acho que sim. Isso e ver a Mona Lisa no Louvre, ignorando todos os quadro de Dali que estão nas salas anteriores. De qualquer forma, o meu amigo norueguês disse-me que ja tinha visitado a Mona Lisa. Preocupa-me o facto de que se possa visitar essa senhora sem ver o Louvre. Como se houvesse uma espécie de porta turistica take away Express ao bom estilo Mcdô.
O meu amigo norueguês foi-se embora para Oslo sem se despedir. Acho que não gostou das minhas piadas sobre a Mona Lisa, o turismo de massas ou os seus habitos sociais. O certo é que fomos, afinal de tudo, bons amigos. Enfim. O melhor do bar é que ha sempre alguém que chega. Ontem, apresentaram-me novos amigos brasileiros. Foi optimo. Falamos imenso sobre o Mundial, sobre futebol e sobre futebol brasileiro. Mas acontece que ignorava a existencia de Zagallo em 1950 e troca o passo e que tal individuo era um génio. Mau assunto, senhor lector. Mais ou menos como desconhecer o Bistrôt, mas esta vez com tintes de ofensa etnocultural. A coisa amansou depois quando me propus a ser victima de anedotas. Muito engraçadas seriam, se não as conhecesse todas substituindo portuga por bilbaino ou gallego. A noite seguiu sem contratempos e ja tenho imensos convites para festas com mais e mais amigos. Falaremos de futebol, de anedoctas, de pêlos, de saidas, de mais amigos e amigas. Uivaremos quando passem belas e curtas saias. A juventude, senhor leitor, faz-se sempre com novos amigos.
No Hexagono.

26 juin 2006

Cronicas do Viajante Amargurado - Coiffeur A


Dentro da rotina de um viajante amargurado inclui-se, claro esta, o lavar os dentes, o escolher roupinha e, entre outras tarefas, o cortar o cabelinho. Façam o favor de imaginar o resto, porque agora não tenho tempo para escrever o obvio ( as compras, a luz, o gas, seroxat, a insustentavel leveza do Ser, O Raio Azul ou os Três Tristes Tigres, sim)
Passa-se qualquer coisa de estranho com o meu terreno capilar. Tão surreal que nem preciso de exgerar para tornar esta cronica mais épicée (cheia de galicismos como fazia Eça de Queiroz, ah ah, ah, ah!). Sempre achei que tenho umas bochechas de tamanho familiar. A minha cara não é feia de todo, mas quando as pessoas me vêm pela primeira vez, tenho a sensação que indagam acerca do tipo de rosca de natal introduzida em cada uma das minhas “maçãs do rosto”. Isso das maçãs... Adoro essa expressão. Mas qui pra nos, senhor leitor, alguns dos homens ou mulheres da nossa praça deveriam chamar-lhes “aboboras do rosto”.
Seguindo pelo fio da meada, sempre utilizei técnicas para esconder ditas aboboras. Cabelo à tijela estilo escuteiro do Kansas versão morena durante os anos oitenta, risco ao meio borbulhento-adolescente-depre nos anos noventa, e, na segunda metade da mesma década, um cabelo liso e enorme, que, acompanhado com brutas dietas espartanas, me deu um ar de priminho da Pocahontas. Um professor de antropologia politica pensava que era um estudante de intercâmbio sul-americano e tentou falar comigo em espanhol, nessa bela Avenida de Berna, 26-C. Um dia, saindo do Instituto alemão, ia despenteado e irritado com o funcionario da secretaria. Um senhor sadico que, para além de desarranjar a vida de terceiros, também inscreve as pessoas nos cursos de alemão. Olho para mim naquela porta do autocarro laranja e digo: é hoje!
Cortei o cabelo e passado meses até tinha uma vida afectiva razoavel. Foram os loucos 98-2000, em que tudo valia a pena. A Expo, a economia, o meu gato novo, a Lucia Moniz... Quando fui ao senhor Jorge cortar o cabelo pela segunda vez, parece que se esquecera da obra prima que me fizera tão somente ha uns três meses atras. Em suma, passei de um cabelo espectacular e pomposo, a ter... um corte de cabelo. E assim foi. Até hoje so tenho direito a “cortes de cabelo” para equilibrar essas maçãs que vejo aboboras.Lembrei-me de tudo isto hoje. Fui cortar o cabelo às 16:00. E ja tenho um “corte de cabelo”. Estive para perguntar se poderiam cortar-me um pouco as aboboras. Mas como não sei dizer a palavra “aboboras” em francês, fiquei calado.
No Hexagono com acento agudo.

Cronicas do Viajante Amargurado - Coiffeur B.


Entro na loja. Olho à minha volta e vejo um grupo de jovens estilistas. Devem sê-lo porque levam tesouras suficientes para fazer uma revolução cultural na cidade. Cada um deles tem, pelo menos, cinco tesouras distintas. Algumas facas, navalhas ou simples armas brancas para que venham la da banlieue mais calmamente, porque isto do Sarkozy faz medo até aos pombos. Aproxima-se um estilista.
- Bom Dia! Magro, alto, sem cabelo, grave, simpatico quanto baste.
- Era para cortar o cabelo. Mas gostaria de fazer um corte com um stylist manager. Sabe, queria fazer algo novo.
Como ele é jovem, suponho que não sera um stylist manager, mas sim um young stylist. Confio nos mais velhos, como me ensinaram em pequeno e insisto em que me corte o cabelo um stylist manager. Tudo o que faço é seguir a terminologia do establecimento em causa. Até têm descontos para estudante, por isso devem ser uma cadeia de cabeleireiros muito séria.
- Proponho-lhe os meus serviços! Posso fazer um corte de stylist manager, sabe? Assim podemos faze-lo ja e tudo.
- Mas assim estou a pagar um serviço e estou a receber outro, não é? Quero dizer...
Acho que ele não ficou demasiado satisfeito com a minha sinceridade cortante e disse que me marcaria um dia para um stylish manager, mas que não poderia ser antes de terça-feira (mentiroso!). Tudo isto aconteceu sabado passado e hoje, segunda-feira, investi pela segunda vez contra os salões Coiffirst de Paris. La estava ele lavando o cabelo de uma cliente. Aproveitei que estava ocupado e deram-me hora para as quatro ( havia stylist manager para antes de terça-feira! ). Volto duas horas depois e começa o ritual do costume.
- Salut! Comment ça va? Sou a stylist manager.
Devem ter percebido que isto dos titulos para mim ainda conta. Esta jovem tinha menos tesouras. Talvez aqui funcione ao contrario do exército. Quantas menos tesouras tenha o estilista, mais capacitado é. Sim, talvez seja isso. Fui assistido por outra jovem (sem titulo) que me lavou a cabeça de uma forma muito estranha. Por momentos pensei que teria perdido os sentidos ou uma paralesia parcial, porque parou de esfregar e deslizava aqueles dedinhos orientais pela minha cabeça cada vinte segundos. Depois percebi tudo. Era uma massagem de stylist manager!!
Fui então convidado a sentar-me numa daquelas cadeiras de avião antigas, cheias de estilo. Senti que se havia alguém sem estilo naquele lugar, era eu. Que cafona sou, meu deus. Depois de explicar como queria que me cortassem o cabelo, imaginando aquele belo corte de 1999 em Lisboa, percebi finalmente que a culpa não era de Madrid, nem de Paris, nem do senhor Jorge. É que esse corte que me agradara tanto foi um simples acidente ou um singular momento de inspiração e mesmo de justiça que atingira o senhor Jorge naquela tarde de setembro. Jamais conseguirei repetir esse corte, mesmo que gaste mais de vinte euros, como hoje ( para mim, vinte euros por um corte de cabelo é muito dinheiro, senhor leitor.)
Gostei especialmente da parte em que olhou para o meu cabelo, como so um estilista pode olhar e disse: isto, não gosto! Vou tira-lo, ok?
Ok! Pensei. Claro que espero que o tire. Afinal, por isso estou aqui, rodeado de estilistas. O cabelo esta demasiado comprido! Bem, talvez seja um ritual. Pude observar que esta estilista me cortou o cabelo da mesma forma que mo cortariam em Sines, em Lisboa, em Estarreja ou em Mahadahonda. Isso sim, dando-me conselhos... de estilista e so com duas tesouras. Por isso devo estar contente. Depois seguiu-se o ritual do shampô que deveria usar, do preço que compensaria ( 15 euros) e do bonito que estava esse corte feito por quem me oferecia desinteressada observação.
Assim, senhor leitor, mais do que dar-lhe conselhos de filosofo suburbano, aproveito estes momentos em que se encontra debruçado neste blogue para pedir-lhe que me deixa a morada de algum cabeleireiro menos estilista e mais atento ao que lhe pedem e que não corte o cabelo da mesma maneira a todos os que procuram o insustentavel estilo do Ser.
Tenha um excelente dia ou uma excelente noite, se for o caso.
No Hexagono com acento agudo.

08 juin 2006

Cronicas do Viajante Amargurado - Aeroplano A

- Yo quiero ver ésa rueda pinchada, mentiroso. A VERLA!!! Cuando salgamos de aquí me la tienes que enseñar!
O Supervisor afirma, mais seguro do que nunca:
- Si quiere gritar, gríteme a mi, señora. Para eso estoy yo aquí.
- Yo no le grito a nadie!
( tenho a certeza de que esta ultima frase foi ouvida por todo o tal de Terminal 4.
Uma hora depois, afirmam os nossos artistas que ja não sabem a que horas chega o avião, nem se chegara. Começamos a perder a paciência e a ficar com fome ao mesmo tempo. Mas ainda temos a esperança de que a companhia nos ofreça um jantar. Porque as companhias de baixo custo, para além de jovens e dinamicas, também nos fazem pagar o pão com manteiga. Mas o melhor de tudo foi o motivo pelo cual o aviao de sustitucion chegara com... tres horas e um quarto de atraso à porta H07.
Perder-se-ia por Barajas? Não. Estaria pero no trafego? Não. Muito melhor: tinha furado um dos pneus (!!!) A vida reserva-nos surpresas e as lições de cultura geral estao sempre ao virar da esquina, quando um menos espera. Os aviõ es, senhor leitor, têm furos nos pneus. Mesmo nas pistas NOVAS, preparadas para receber mil passageiros por hora. Assim, pergunto-me se o avião poderia também não ter pegado, se poderia travar numa curva e derrapar, riscando um outro avião mais caro da British ou da American, ou se poderiamos enventualmente ter de parar em Toulouse para mudar o oleo ao radiador...
Ja dentro do avião da companhia substituta, agora com todos os pneus em forma, dirigimo-nos para a pista. Instruçoes de segurança, cheiro a borracha dos anos oitenta, capitão que nos da as boas vindas a bordo do AIRBUS 737 (uma nova mistura entre Boeing e Airbus), assentos azuis eléctrico anos setenta. O ideal para que um se sinta em segurança. O avião era velho, as hospedeiras pertenciam a duas companhias diferentes, ignorando-se entre si e o piloto nao sabia onde estava. Tremi como varas verdes num campo ventoso. Ainda assim chegamos a Charles de Gaulle. Mas o tempo necessario teria permitido que voassemos até Mosvcovo, pelas minhas contas.
Para percorrer a distância total entre os dois extremos do novo Terminal 4 do aeroporto de Madrid Barajas são necessarios uns bons 25 minutos. Se lhes juntar-mos os nervos causados pelo medo da perca de um aviao e as aglomeracoes humanas, temos um cocktail explosivo.
Ainda durante o voo, o nosso Supervisor de bordo, anuncia qur a companhia ofrecera bebidas para todos.
- Quiero un refrigerante, por favor.
- Muy bien.
-¿Y de comer, tiene algo?
- Si, claro.
Quando me põe no tabuleiro a sandes que tinha escolhido, avisa-me:
- Pero es que la compañía regala tan solamente las bebidas. El bocata serian 4,50.
Devolví-lhe o tal de bocata a 2 euros o grama.
Quando finalmente chegamos a Charles de Gaulle ja não é dia sete. O comboio que deveria transportar os passageiros até Paris tinha deixado de funcionar à meia-noite. Temos de apanhar dois autocarros, e como se enganam a dar-nos as informações, voltamos ao inicio do percurso. Chegamos ao centro de Paris uma hora depois, o que resulta, entre atrasos e esperas, em 12 horas de aeroportos, voo e malas.
Tudo isto entre Madrid e Paris, que, à escala planetaria, seriam duas capitais que se separam por uma distância de nivel regional.
As duas companhias? A Vueling.com, que se dedica a vender uma imagem de companhia flexivel, adequada às necessidades de hoje e sem os formalismos obsoletos das companhias ditas de bandeira. A substituta? A Futura. Nunca ouvi falar dela até ontem. E não penso voltar a voar naqueles aviões. Segundo a sua revista de bordo, têm dois. E nada modernos.
No Hexagono.

17 mai 2006

Cronicas do Viajante Amargurado - 1984.


Lembro-me como se fosse hoje. Os gelados com a cabeça do Dartacão ( sabor a baunilha) nas praias do outro lado da ponte. Transportado naquele carro cor de laranja feito de fibra e plastico, com uma capota de lona. Vagueava pela praia à procura da senhora dos bolos. Eram enormes, aqueles bolos. Dispostos numa espécie de disco voador, com a base em verde inglês e a tampa de plastico, muito baço.
Adorava o homem dos gelados. Roupas a condizer com aquela mala térmica. Tudo muito alvo, talvez para não se queixar da temperatura do sol da caparica. Mas o mais importante, o que o senhor trazia na mala termica: o troféu. O gelado do Dartacão. Passara provavelmene uns bons vinte minutos a ver mais um episodio da série espanhola poucas horas antes de sairmos para a praia.
O refrão do genérico nunca fora traduzido e isso confundia-me. Esperava horas olhando para a Grundig decorada a madeira, depois de ouvir o hino de abertura da RTP. Acho que nessa época, a emissão parava algumas horas durante a tarde. Como se os trabalhadores podessem descansar. Aquela cabeça de cão com um chapéu de mosqueteiro reservava-me uma surpresa que ja conhecia. Mas que vivia sempre como se fosse a primeira vez. Deveria custar 35 escudos, aquele gelado Que bela época!
As viagens pela ponte vermelha faziam-se com o radio de fundo. Os Herois do Mar falavam do amor e do primeiro beijo. Eu ainda não tinha dado o meu, mas gostava daquelas vozes.
Pronuncio de praia e de sol. A imensidão da areia convidava-me a fugir. Deixava que me esquecesse de mim, como a canção da Lena d’àgua. Tinha umas pas de plastico e uns baldes. Roia maçãs (mas preferia vezes mil o sabor abaunilhado do Dartacão). Quando me aventurava pelo mar (media 40cm), chegava a afogar-me nas ondas. Fui salvo por conhecidos e desconhecidos. Passava depois alguns minutos na minha toalha amarela a tentar livrar-me do gosto salgado de alguns golos de àgua que o mar me forçara a beber, como se me quisesse dar uma lição. Momentos antitéticos aos do ritual do famoso gelado. Cheguei a comer areia. Perdi os meus carrinhos e nunca mais os voltei a ver. Se os carrinhos dessem fruto, não haveria praias na margem sul. So florestas de carrinhos e talvez algumas pas. Lembro-me da nossa gata, que se escondia cada vez que chegava a casa. Era terrivel. Como se dizia la em casa, “a gata faz-nos esperas”. Era o inicio dos dias de Verão.